Fusion.
Tô fazendo um curso de jornalismo de moda e um dos primeiros exercícios foi analisar um look atual, identificando suas referências – desde outros estilistas até épocas anteriores, que marcaram a história da moda. Como gostei da experiência, resolvi colocar aqui. Aliás, exercício gostoso e quebra-cabeça de fazer, pois é nessa hora que a gente percebe o mundo de informação que conseguimos colocar numa só produção, por mais clean que ela seja =)
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Para entender a moda e sua influência histórica nos looks atuais é preciso ir além das características distintas de cada época e visualizar sua fusão, somada aos avanços tecnológicos e têxteis alcançados nos dias de hoje. Passado tanto tempo desde a firmação da sua importância e indiscutível presença no mundo, analisar uma produção ou apenas uma peça, atualmente, é como montar um quebra-cabeça, onde cada detalhe remete a um período, sendo constamente alterado ou reconstruido, até alcançar a harmonia no conjunto.
Como exemplo, escolhi o vestido da coleção inverno 2006 da Osklen, onde o diretor de estilo da grife Oskar Metsavaht, junto à coordenadora de moda Juliana Suassuna apostam no desestruturalismo clean, característico de designers orientais, como Yohji Yamamoto e Issey Miyake, junto à silhueta “livre” e reta, que marcou o final da década de 10, do século XX – Época em que as mulheres, finalmente, começavam a se livrar dos espartilhos e ter a feminilidade natural dos seus corpos explorada.
Com um decote que lembra as camisetas usadas por atletas de regatas, a parte de cima da peça é marcada por essa silhueta solta e alongada, criada, ainda no início do século XX, por nomes como Paul Poiret e Madeleine Vionnet, que lutavam contra a prisão física das mulheres, nos corpetes e espartilhos. A diferença entre os séculos fica por conta do alinhamento que, nesta versão, surge mais justo ao corpo, revelando sua forma, sem estar rente a ele.
A grife reforça as diferenças entre épocas ao combinar o tom neutro do tecido com o decote lateral cavado, que deixa o desenho dos seios à mostra, criando um efeito urbano e sexy, sem o “sexo” lançado por Jean Paul Gaultier, no final dos anos 80.
O orientalismo mencionado no início é encontrado no efeito visual completo da peça. Porém se torna mais óbvio na saia, onde o tecido ganha ares de sobreposição, resultado de dobraduras e cortes estratégicos. Torções também fazem parte do look, reforçando a referência e criando um “exagero” leve que marca o trabalho dos designers orientais, que levaram as técnicas dos seus países para a Europa e América do Norte, onde fizeram suas carreiras.
Nos pés (não está visível na foto), a grife pontua a produção com um par de tênis - calçado que ganhou destaque mais para o final da segunda metade do século. Apesar de conhecido pelo ar descolado, junto a ele, a sofisticação do vestido ganha uma pitada contemporânea, mostrando a versatilidade da peça. Talvez esta tenha sido exatamente o objetivo da combinação. Além, é claro, de também funcionar como um meio de determinar que o vestido foi desenhado no e para o século XXI, sem se prender ao estilo de vida das épocas usadas como referência.
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